Aécio e FHC ‘ofuscam’ Serra e Lula ‘obscurece' Dilma
Folha


Como vai a coisa? Nenhum deles acha que a coisa está preta. Para Dilma, a coisa vai muito bem. Se voltar ao passado, estraga. Para Serra, a coisa melhora faz 25 anos. Mas o Brasil pode mais.
Neste sábado, a platéia teve uma idéia do espetáculo que a espera. Serra foi aclamado em Brasília. Dilma foi festejada no ABC paulista. Ambos frequentaram seus respectivos atos com cara de entreato. Os palcos foram montados para que eles brilhassem. Porém...
Porém, Serra e Dilma produziram, ao discursar, uma euforia protocolar. Em Brasília, brilhou FHC. Logo ele, que quase foi privado do microfone. Mais que FHC, cintilou Aécio. Logo ele, a quem foi sonegada a candidatura. Em São Bernardo, faiscou Lula, o senhor de todos os palanques.
O repórter assistiu aos dois eventos, transmitidos pela internet. FHC foi aclamado efusivamente pela claque da oposição. Resumiu a tarefa do eleitor: "Vamos querer um Brasil que, ao olhar para o passado, o difama e ao olhar para o presente transforma tudo em marketing ou vamos querer um Brasil que construa o futuro?" Mais adiante: "Não queremos um Brasil com ódio".
Fez o que os outros hesitam fazer: defendeu o seu legado: "O que se faz hoje, foi plantado no nosso governo e nas administrações anteriores”. Cavalgou a fama de Lula, a quem se costuma atribuir o hábito de passar a mão na cabeça de malfeitores: "O país quer lei, quer respeito e quer malandro na cadeia". Disse que o sucessor abusa do marketing.
FHC esquivou-se de dizer que, na era tucana, as arcas da Viúva também foram sitiadas por aliados salteadores. Renan Calheiros escalara, veja você, a pasta da Justiça. Jader Barbalho fizera e acontecera na Sudam e arredores. Coisas que não convinha lembrar em dia de festa.
Penúltimo a falar, Aécio eletrificou o auditório ao iluminar o passado do PT. Lembrou os verbetes da enciclopédia em que o partido de Lula figura como a legenda do contra, a turma do quanto pior, melhor.
Reordou que o petismo sonegou a Tancredo Neves os votos no Colégio Eleitoral. Palmas. Negou-se a estender a mão a Itamar Franco na fase pós-impeachment. Mais palmas. Sob FHC, virou a cara para o Plano Real. Uivos. Ficou contra a Lei de Responsabilidade Fiscal. Ovação.
A certa altura, Aécio disse que Lula tem muitas virtudes. Quando parecia que desfiaria um rosário de elogios ao presidente superpopular, pespegou: "Mas uma [virtude] mais que as outras foi a de manter inalterada a política econômica de FHC". A platéia foi ao delírio.
No mais, Aécio sacudiu o lençol do fastasma da infidelidade partidária: "Hoje, Minas está presente [pausa]... Para dizer que o candidato de Minas é José Serra". A seguir, uma frase que reanimou o sonho da chapa puro-sangue:
“A partir de Minas Gerais, das montanhas de Minas, estou ao seu lado”. Acrescentou que irá para “onde eu for convocado". E a claque, em êxtase: “Vice, vice, vice, vice”! Aplaude daqui, fotografa dali, Serra foi à tribuna. Serviu aos ouvintes um balde de água gelada.
Disse o que lhe cabia dizer. Mas falou demais. E imprimiu à fala um ritmo de sala de aula, não de pré-convenção. Aqui e ali, como nas platéias domesticadas dos programas de auditório, ouviram-se palmas.
Nada que se assemelhasse, porém, às reações arrancadas por FHC. Nem de longe se aproximou de Aécio. Um desavisado que passasse pelo local suspeitaria que os apelos de “vice, vice...” destinavam-se a Serra, não ao colega de Minas.
O discurso de Serra pode ser lido aqui. Se você está à procura de surpresas, não perca o seu tempo. Vá ler outra coisa. Na essência, o trololó ou repetiu ou ficou aquém da fala que Serra servira no dia em que se despetiu do governo de São Paulo.
O candidato apresentou-se como filho de um homem que "carregou caixas de frutas" na feira para que ele pudesse, mais tarde, "carregar caixas de livros". Disse que o Brasil avança faz 25 anos. Lembrou que remanescem problemas por resolver.
Citou segurança, saúde e educação. Pelo menos em duas dessas áreas, segurança e educação, o governador Serra produziu em, São Paulo, índices que não socorrem o presidenciável Serra.
Serra recusou o plebiscito proposto por Lula: “Não aceito o raciocínio do nós contra eles. Lutamos pela união dos brasileiros e não pela sua divisão". Iluminou a trilha que pretende seguir na campanha: "Quanto mais mentiras os adversários disserem sobre nós, mais verdades diremos sobre eles".
Menções a Lula? Só indiretas e camufladas. Como no trecho em que Serra disse que "o Brasil não tem dono". No mais, o candidato repetiu um zilhão de vezes o que parece ser o bordão de sua candidatua: “O Brasil pode mais”.
Matreiro, Lula teve a sabedoria de achegar-se aos holofotes de São Bernardo só depois que o ato dos adversários já se encaminhava para o final. Teve, então, a oportunidade de devolver as [poucas] alfinetadas que recebera.
Antes dele falou Dilma (íntegra aqui). Não disse o que fará. Preferiu enunciar o que não vai fazer. Coisas assim: “Vocês não me verão por aí pedindo que esqueçam o que afirmei ou escrevi”. Ou assim: “Não permitirei que o patrimônio nacional seja dilapidado, partido em pedaços”. Sobreveio Lula, o personagem que a platéia deseja ouvir.
Ironizou o lema de José ‘o Brasil Pode Mais’ Serra. Insinuou que o adversário plagiou Barack “Sim, nós Podemos’ Obama. E, retomando a pregação do “nós contra eles”, disse: "Quando eles falam 'O Brasil pode mais', nós falamos: 'nós fazemos mais, nós fazemos muito mais'".
Fez troça também de Aécio: "O momento auspicioso... foi quando o ex-governador de Minas falou que é preciso reforçar as privatizações”, disse, acomodando no bico do tucano algo que ele não piara. “Foi o maior aplauso na festa deles. Eu sinceramente não quero estes aplausos". A audiência, arrebanhada por centrais sindiais, vaiou Aécio a plenos pulmões.
À medida que a campanha avança, as atenções tendem a se concentrar nos candidatos. A julgar pela preliminar, os embates que estão por vir tendem a ser, por assim dizer, soporíferos. Terão a animação dos velórios. Talvez seja melhor assim. O país não parece mesmo interessado em sangue. Prefere ideias que permitam intuir para onde vai a coisa.
Escrito por Josias de Souza às 15h05

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