Serra pode aproveitar Copa, diz especialista; veja o que outros candidatos já fizeram
Diego Salmen
Do UOL Eleições
Em São Paulo
Do UOL Eleições
Em São Paulo
Para se aproveitarem da Copa do Mundo em época de eleição, os pré-candidatos à Presidência da República tentam se vincular de alguma forma ao torneio. Nem todos, porém, mostram a mesma familiaridade quando o assunto é futebol: entre os três presidenciáveis, José Serra (PSDB) é o que tem mais intimidade com o tema.
“O candidato pode se aproveitar [da Copa] se ele aparecer em um contexto que o eleitor entenda como natural”, afirma Rubens Figueiredo, cientista político e diretor do Cepac (Centro de Pesquisas e Analises de Comunicação). “Imagina uma coletiva em que a Dilma comece a falar de futebol, é um negócio até grotesco”, diz.
Recentemente, Serra lamentou a ausência dos jogadores Neymar e Ganso na lista de convocados do técnico Dunga, mas desejou sorte ao selecionado. Atitude semelhante teve sua concorrente direta, a petista Dilma Rousseff, torcedora do Internacional e simpatizante do Atlético-MG, embora não seja aficionada pelo esporte. Já Marina Silva (PV) admitiu, em entrevista exclusiva para o UOL Eleições, que não acompanha futebol; no entanto, disse que, como ambientalista, “torcia pelo Ganso” na Seleção.
“O esporte está diretamente ligado à emoção das pessoas, ainda mais quando se fala em Copa do Mundo. Não há nada que possa deixar o brasileiro mais feliz ou satisfeito”, afirma Conrado Nakata, proprietário da Bravo, agência especializada em marketing esportivo. “Qualquer candidato que possa usar de uma forma coerente isso, o fará”.
Lula, Brizola, Marta Suplicy e José Dirceu vibram com gol do Brasil contra a Escócia, em 1998
“Dos três, quem entende mais de futebol, é apaixonado, é o Serra. Se um repórter chamar o Serra para comentar um jogo da Copa do Mundo, acho que não seria uma aberração”, diz Figueiredo. “O mesmo não aconteceria com os outros candidatos”, afirma.
Palmeirense “roxo”, o ex-governador de São Paulo costuma assistir aos jogos de seu time no Palestra Itália sempre que possível, e conversa com frequência com Luiz Gonzaga Belluzzo, seu amigo e presidente do clube, sobre o desempenho da equipe.
No final da década de 1990, o então ministro da Saúde chegou a criticar o técnico Luiz Felipe Scolari pelo esquema tático “retranqueiro” que impunha ao time. Em resposta, ouviu que a saúde no país era “precária”. “Ainda bem que tenho um bom plano”, retrucou Felipão.
Para Figueiredo, o domínio de um candidato sobre o tema Copa do Mundo ou até mesmo futebol pode ajudar a criar empatia com fatias do eleitorado. “Mas não é um fator decisivo. Eu nunca vi alguém falar que vota em alguém por causa de Copa de Mundo”, afirma.
Brasil eliminado
Em junho de 1998, o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), candidato à reeleição, previu a vitória do Brasil sobre a Escócia em seu primeiro jogo na Copa da França por 2 a 1. “Todos nós, brasileiros, estamos aqui torcendo para que, mais uma vez, vocês representem com garra e dignidade esse grande país que é o Brasil”, disse FHC em carta endereçada ao esquete nacional. O sociólogo sempre dissera torcer por Flamengo e Corinthians, as duas maiores torcidas do país, embora tenha reconhecido posteriormente não dar muita atenção ao futebol.
No mesmo mês, o então dirigente sindical Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à época em sua segunda disputa pela Presidência, publicou artigo na Folha de S. Paulo em que dizia estar “torcendo muito” para o Brasil sagrar-se campeão. O texto, publicado às vésperas da final contra a França, encerrava assim a exaltação à Seleção:
“Depois da festa, estaremos planejando um novo time para daqui a quatro anos. Um novo e longo sonho. Sem esquecer, porém, que nesse período teremos um Brasil sob nova direção e, finalmente, com uma nova forma de governar. Para todos, maioria e minorias. Mas isso é outra história...”, escreveu Lula.
Futebol “paz e amor”
No pleito seguinte, posturas semelhantes. Em sua versão “paz e amor”, o corintiano Lula não deixou de prestigiar o plantel brasileiro em busca de dividendos políticos. Em agosto de 2002, a dois meses das eleições, o ex-operário comparou sua equipe de campanha à "seleção do Felipão", ao mesmo tempo em que equiparava os adversários às seleções de França e Argentina, eliminadas da competição.
Lá como cá, o presidenciável José Serra acreditava em “vitória apertada” do Brasil numa hipotética final contra a Argentina, a França ou a Itália. O tucano, contudo, não consultou a tabela da Copa, que impedia que quaisquer das três seleções enfrentassem a equipe brasileira na decisão do torneio.
Correndo por fora, o também candidato Ciro Gomes, na ocasião filiado ao PPS, viu o tiro sair pela culatra: testemunhou a derrota do Brasil para o Paraguai por 1 a 0 em um amistoso, enquanto assistia ao jogo vestindo uma camisa de número 23, o mesmo de seu partido, na cidade de Fortaleza.
“Todo candidato tenta, a sua maneira, usar o esporte como uma ferramenta para a campanha dele”, diz Nakata. Para o especialista, a imagem do candidato não é prejudicada em caso de insucesso da Seleção brasileira no torneio. “Não acho que a derrota possa influenciar, mas a vitória, sim”, avalia.
À época, a candidatura de Ciro – que foi comentarista esportivo em uma rádio de Sobral (CE) - tinha o apoio da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Ele é amigo do presidente da entidade, Ricardo Teixeira, e durante a campanha rejeitou a idéia de se fazer uma intervenção federal na confederação. "Quem tem que decidir a forma de administrar a CBF são os seus membros", afirmara o candidato, torcedor do Guarany de Sobral (CE) e simpatizante do Corinthians.
Reeleição de chuteiras
No pleito de 2006, quando disputava a reeleição contra o santista Geraldo Alckmin (PSDB), Lula incluiu em seu programa de governo, de maneira genérica, a necessidade de o país sediar uma Copa do Mundo. "[O governo] vai postular o direito de ser a sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014", afirmava o documento.
Alckmin assiste ao jogo entre Brasil e Croácia ao lado de Serra, na Copa de 2006
A polêmica mais conhecida do período, no entanto, foi uma troca de farpas entre Ronaldo e Lula, que questionou publicamente o peso do atacante: “Afinal de contas, ele está gordo ou não está gordo?”, disse. O jogador não deixou por menos: “Todo mundo diz que ele bebe pra caramba. Tanto é mentira que eu sou gordo como deve ser mentira que ele bebe pra caramba”, afirmou Ronaldo.
Em junho do mesmo ano, o presidente realizou uma festa junina, o “Arraiá do Torto”, na Granja do Torto, uma das residências oficiais da presidência da República, com decoração inspirada na Copa do Mundo. Durante o torneio, Alckmin assistiu no Recife ao jogo entre Brasil e Japão numa tentativa de obter dividendos políticos no nordeste, região que à época já era tida como reduto eleitoral de Lula.
“Agora, depois da Copa, se o Brasil ganhar, é muito provável que haja aquele encontro com o presidente da República, mas não vai ser algo que vai influenciar muito. Se aproveitar diretamente disso soa muito oportunista e artificial”, diz Figueiredo.
Em 2002, por exemplo, o presidente FHC recepcionou a Seleção pentacampeã , em uma cerimônia que ficou famosa pela cambalhota do volante Vampeta em plena rampa do Palácio do Planalto. “O eixo da eleição é se as pessoas ficam felizes com o governo ou não; ganhar ou perder a Copa não muda nada”, afirma Figueiredo.
Diante de FHC, Vampeta dá cambalhota durante a recepção aos campeões do mundo de 2002

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