Para especialistas, ausência em debates não afeta Dilma, mas prejudica democracia
Diego Salmen
Do UOL Eleições
De São Paulo
Do UOL Eleições
De São Paulo
Dilma Rousseff torce pelo Brasil, que nesta terça-feira (15) fez a sua estreia na Copa do Mundo, ao lado de José Eduardo Cardozo, secretário geral do PT, e Obey Ament (Partido Comunista da França)
A ausência da candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rouseff, dos debates promovidos ao longo da campanha eleitoral não deve prejudicar sua imagem junto à maioria do eleitorado, avaliam especialistas ouvidos pelo UOL Eleições. "A Dilma tem grandes possibilidades de vitória, e tem que fazer uma campanha sem grandes riscos. Ela ser indicada pelo presidente Lula é um fator fortíssimo para a candidatura dela", diz Rubens Figueiredo, cientista político e diretor do Cepac (Centro de Pesquisas e Analises de Comunicação). "Do ponto de vista democrático, é péssimo ela não ir; agora, do ponto de vista da estratégia eleitoral, faz todo sentido", afirma.
A estratégia não é nova. Na campanha eleitoral de 1998, o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), à época líder nas pesquisas, não compareceu a nenhum debate ao longo de sua campanha à reeleição; o mesmo ocorreu em 2006 com o também candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que, no entanto, compareceu a debates no segundo turno do pleito contra seu adversário Geraldo Alckmin (PSDB). "É muito comum o candidato que está na frente das pesquisas ser criticado por todos os demais candidatos nos debates", diz Figueiredo.
Após ter confirmado presença em uma sabatina promovida pelo portal UOL e pela Folha de S. Paulo, a presidenciável petista cancelou sua participação para realizar uma viagem a Europa, onde se encontrou com Nicolas Sarkozy, presidente da França, e José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia; Dilma ainda terá encontros com José Luiz Rodriguez Zapatero, presidente da Espanha, e José Sócrates, primeiro-ministro de Portugal. O cancelamento motivou uma série de críticas e abriu espaço para especulações sobre a ausência de Dilma em eventos semelhantes ao longo da campanha.
Para o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-RJ, a ausência de Dilma "pode trazer prejuízo a ela nos setores médio e de formadores de opinião, que gostam desse tipo de debate". No entanto, avalia o especialista, "a maior parte do eleitorado, feliz ou infelizmente, não vai se definir dessa maneira".
A opinião é compartilhada por Figueiredo. "Isso [a ausência em debates] atinge uma parcela muito pequena do eleitorado; do ponto de vista eleitoral, não chega a fazer diferença", diz. "Incomoda quem não vai votar na Dilma e quem tem uma carga de informações muito volumosa sobre política. São poucos os eleitores com esse perfil", afirma.
Segunda o último levantamento do Datafolha, divulgado em maio, a ex-ministra da Casa Civil está empatada com o tucano José Serra na disputa pelo Palácio do Planalto - ambos registram 37% das intenções de voto cada. Atrás deles vem a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (PV), com 12% da preferência do eleitorado. A ascenção nas pesquisas pode explicar uma mudança na campanha de Dilma. “Pode ser uma retirada estratégica, para evitar a exposição, já que ela é fraca no manejo público. Pode ser medo de soltar uma declaração infeliz e ver isso repercutir. Mas com isso ela ganha a imagem de candidata que foge do debate”, analisa o cientista político Cláudio Couto, da FGV-SP.
Couto diverge dos colegas quanto ao impacto eleitoral causado pela ausência em debates. “No Brasil, apesar de FHC e Lula já terem faltado a debates, no caso de Dilma, ela é uma figura que está em fase de construção de imagem, sem a popularidade do presidente Lula, por exemplo", diz. “No México, tivemos o exemplo do candidato Lopez Obrador, líder, que fugiu do debate e caiu nas pesquisas”, afirma.
"Frase mal encaixada"
Os presidenciáveis têm seu primeiro debate agendado para 5 de agosto, na Band. No mês seguinte, a RedeTV! recebe os candidatos à Presidência no dia 12; a Record, por sua vez, promove o encontro no dia 26 do mesmo mês. A Globo realiza o último embate, marcado para o dia 30 de setembro. No dia 3 de outubro, um domingo, acontece o primeiro turno das eleições.
"Gente, não tem o menor sentido dizer que estou evitando debates e entrevistas. Basta olhar a imprensa", escreveu a ex-ministra da Casa Civil em seu twitter para justificar o cancelamento. "Só não irei à sabatina da Folha na data marcada porque embarco daqui a pouco para uma série de encontros com chefes de estado e governo europeu", disse. "Domingo, volto para retomar a agenda ,que, obviamente, inclui entrevistas e debates. Debates já marcados na TV aberta: Band, Record, Rede TV!, Globo...", afirmou a petista no microblog.
Na avaliação de Ismael, a assessoria de Dilma "tem medo de duas coisas: de alguma resposta que possa não ser boa, e da questão da forma, que é mais grave que o conteúdo". Para o especialista, a imagem da ex-ministra da Casa Civil é construída "para que não seja vista como autoritária, mandona, que não tenha esse perfil; dentro de um debate desses, em que a pessoa fica sem poder disfarçar o que está pensando e sentindo, pode surgir alguma imagem ruim, um descontrole. A preocupação maior não é o conteudo, porque isso ela vai treinando, o problema é a forma", afirma.
"O debate é a única situação da campanha em que o candidato tem a oportunidade de falar por algum tempo, mas também é interpelado e aí corre o risco maior", diz Figueiredo. "Ele não está protegido pelo marketing nem pela assessoria de comunicação. Sempre há a possibilidade de os candidatos se desentenderem, uma frase mal encaixada, um olhar raivoso que o eleitor pode perceber", finaliza.

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