César Maia
1. Os debates presidenciais na TV se transformaram em uma instituição desde o debate inaugural entre Kennedy e Nixon em 1960. Ali, pela primeira vez, a equipe de Kennedy usou os elementos de imagem para produzir um impacto melhor no eleitor, como contraste com o cenário, combinação terno-gravata, além de um jeito escandido, otimista e suave de falar.
2. Daí para frente, os pesquisadores e analistas passaram a escrever, desenvolver teorias e assessorar candidatos. A preparação para os debates, a partir dos anos 80, tornou-se uma aula por imersão. As discussões com as emissoras de TV, sobre cenário, iluminação e uso das câmeras passaram a ser partes obrigatórias. E a formatação, em relação às perguntas, à dinâmica..., da mesma forma.
3. Algumas linhas passaram a ser adotadas. Com exceção do Brasil, os debates têm que ocorrer antes da última semana de campanha. Nos EUA, antes da última quinzena. As pesquisas mostraram que vitórias e derrotas em debates se diluem em 3 dias, a menos que tenha havido um nocaute que se transformou em matérias amplas e seguidas na imprensa. Outro problema no Brasil é que em apenas uma TV a audiência é massiva. Nos EUA, na Grã-Bretanha e na França, mudam-se as TVs e a audiência é a mesma. Vale dizer: aqui, um debate vale muito mais que os demais e é esse que ocorre exatamente a 72 horas da eleição.
4. Tornou-se padrão o uso de gravatas de uma só cor e de ternos ou vestidos/terninhos de cor mais escura, num tom sobre tom, com a cor principal do cenário. A fala do candidato deve sempre mostrar tranquilidade e seus olhos devem, mesmo tendo a câmera como eixo central, flutuar naturalmente entre seus adversários e a câmera. Um leve gracejo, quando se critica um adversário, ajuda a memorabilidade. O candidato deve trazer suas fichas/papéis tão bem ordenados que seja fácil encontrá-los sem ter que manipulá-los.
5. Algum movimento com ruído enquanto seu adversário fala, ajuda a desconcentrá-lo. Lembre bem: o candidato tem vantagem quando responde e não quando pergunta, pois quando responde ficará sempre com a última palavra na tréplica. O telespectador não se dá conta quando dentro da resposta se faz uma tangente para se dizer o que se quer, usando a pergunta como gancho.
6. No início do debate a audiência é maior e aí se deve concentrar a estratégia. Uma pergunta que fere deve ser recebida com absoluta suavidade, como o riso de um boxeador quando leva um gancho no fígado. Ver e rever as caras e bocas de Reagan, Mitterrand, Clinton e Blair, ajuda muito.
7. Lembre-se: raramente se ganha um debate. Mas às vezes se perde um debate. Na Grã-Bretanha nesta eleição, no primeiro debate, Clegg surpreendeu os favoritos que haviam se preparado para o debate entre os dois. Clegg subiu nas pesquisas em seguida e passou a segundo, perto do primeiro. No outro debate, Cameron e Brown prepararam algumas cascas de bananas com declarações de Clegg, especialmente a favor do Euro. Poucos dias depois, Clegg mergulhava quase 10 pontos e Brown voltava a assumir a vice-liderança.
8. Os que se precipitaram apoiando Clegg (The Guardian, por exemplo) devem estar arrependidos pelo amadorismo e desconhecimento das técnicas e do desdobramento de debates na TV.

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