UMA ENTREVISTA, A FALSA QUESTÃO E A PONTE
Reinaldo Azevedo
O pré-candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, participou ontem, no Rio Grande do Sul, de uma espécie de debate chamado “Painel RBS”. Abaixo, publico o vídeo da terceira e última parte — há links para as outras duas. Avaliem o desempenho. Como a disputa se dará entre Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva, o eleitor que não vota partidariamente só consegue escolher o melhor analisando a obra de cada um, sua biografia política e seu pensamento.
Vocês fazem a avaliação. O meu ponto é outro. Há tempos chamo a atenção de vocês para o que chamo infiltração petista na grande imprensa — e pouco me importa se ela é consciente ou não; pouco me importa se o jornalista está cumprindo ou não uma tarefa partidária. É inaceitável que uma mentira tornada lema de campanha se transforme na questão de um jornalista como se ele estivesse afirmando: “Hoje é quinta-feira”. Vejam a pergunta de Rosane Oliveira a partir dos 14min20s. Volto depois.
Reproduzo a pergunta de Rosane
Em 2006, o seu companheiro Geraldo Alckmin, de certa forma, parecia querer esconder o governo Fernando Henrique Cardoso. Eu gostaria de saber se o senhor vai usar o governo Fernando Henrique Cardoso na sua campanha como um instrumento, né?, de comparação até com o que o senhor pretende fazer e se o senhor planeja retomar o programa de privatizações que foi interrompido pelo governo Lula”.
Em 2006, o seu companheiro Geraldo Alckmin, de certa forma, parecia querer esconder o governo Fernando Henrique Cardoso. Eu gostaria de saber se o senhor vai usar o governo Fernando Henrique Cardoso na sua campanha como um instrumento, né?, de comparação até com o que o senhor pretende fazer e se o senhor planeja retomar o programa de privatizações que foi interrompido pelo governo Lula”.
A questão que me interessa, aqui, é de natureza jornalística. Vamos linha a linha:
1 – Rosane segue a pauta petista — e, de novo, não especulo sobre intenções, mas sobre fatos — que pretende fazer o embate entre FHC e Lula, dois não-candidatos;
2 – Estamos diante de um problema que é de natureza lógico e, digamos, da natureza das coisas propriamente: como poderia Serra usar o governo FHC “como um elemento de comparação” com o que ele “pretende fazer”?
3 – Rosane afirma que o “programa de privatizações foi interrompido pelo governo Lula”. Qual “programa de privatização”? Que outros empresas estavam na lista? Onde está esse programa? Se Rosane teve acesso a ele, tem um furo de reportagem. Esse programa nunca existiu. É uma invenção do PT, usada como terrorismo eleitoral em 2006.
4 – Não é possível afirmar a existência de um “plano de privatização” que poderia ser retomado quando não há plano de privatização nenhum.
5 – O governo Lula também fez privatizações — privatização mesmo, em sentido estrito (Banco do Estado do Maranhão e Banco do Estado do Ceará) — e concessões em hidrelétricas e estradas federai — nesse último caso, uma ação desastrosa.
1 – Rosane segue a pauta petista — e, de novo, não especulo sobre intenções, mas sobre fatos — que pretende fazer o embate entre FHC e Lula, dois não-candidatos;
2 – Estamos diante de um problema que é de natureza lógico e, digamos, da natureza das coisas propriamente: como poderia Serra usar o governo FHC “como um elemento de comparação” com o que ele “pretende fazer”?
3 – Rosane afirma que o “programa de privatizações foi interrompido pelo governo Lula”. Qual “programa de privatização”? Que outros empresas estavam na lista? Onde está esse programa? Se Rosane teve acesso a ele, tem um furo de reportagem. Esse programa nunca existiu. É uma invenção do PT, usada como terrorismo eleitoral em 2006.
4 – Não é possível afirmar a existência de um “plano de privatização” que poderia ser retomado quando não há plano de privatização nenhum.
5 – O governo Lula também fez privatizações — privatização mesmo, em sentido estrito (Banco do Estado do Maranhão e Banco do Estado do Ceará) — e concessões em hidrelétricas e estradas federai — nesse último caso, uma ação desastrosa.
Serra respondeu, conforme transcrevo abaixo, e a coisa tomou um rumo inesperado e até engraçado:
Serra - Não tem privatização pela frente. O governo Lula não interrompeu. Até porque poderia ter voltado atrás, com os pés nas costas, em qualquer coisa, porque os fundos das estatais estão aí — em geral, os fundos são controlados pelo PT —, e eles são acionistas muitos importantes. Além do mais, no caso de estradas, [o PT] também fez concessão. Eu diria que não foi muito bem-feita. Pelo menos, lá em São Paulo, não andou a estrada federal. Mas fizeram também. Aí é uma questão que é usada, muitas vezes, do ponto de vista eleitoral, não é na prática. Eu posso ser acusado de muitas coisas, menos de ser desonesto e de ser privatizante. Agora o setor privado é o que gera empregos no Brasil. Você não imagina que você vai dar emprego para os jovens, tudo emprego público. Então, no que sou aliado do setor privado? Na criação do que é mais importante para a vida de todo mundo: emprego. Então, nesse sentido, a minha política está voltada para o emprego: um estado ativo, que tem projeto de desenvolvimento e que vai empurrar o Brasil para a frente.
Rosane – Mas em obra de infra-estrutura…
Serra – O resto é trololó de campanha eleitoral. Eles fazem isso sabe para quê? Para que jornalistas perguntem, como você está fazendo, para criar um falso problema.
Rosane – Não é um falso problema, governador. No caso da infra-estrutura, se o estado não tem dinheiro para fazer, por exemplo, uma segunda ponte no [rio] Guaíba, que é uma reivindicação dos gaúchos…
Serra – O governo Lula é contra isso?
Rosane – Não, eu quero saber se o senhor…
Serra – Não, você está me comparando com o PT: o governo Lula é contra isso? Sim ou não?
Rosane – O governo Lula não aceita… Uma das alternativas que eu queria colocar para o senhor…
Serra – Eles não fizeram, por exemplo, concessão de aeroportos… Tudo depende do que os sindicatos dizem também, do interesse de alguma pessoa que estão intermediando…
Rosane – A pergunta, o senhor não me permitiu concluir, eu gostaria de concluir para lhe colocar o problema real que nós temos: a necessidade de uma segunda ponte aqui no Guaíba. Temos uma ponte móvel, que é um problema de ligação com a Zona Sul do Estado. As alternativas são: ou se constrói com dinheiro público, e não se construiu no governo Lula, nem há um projeto pronto, ou a ampliação da concessão privada para a construção dessa ponte. Eu queria saber se essa alternativa…
Serra – A sua principal pergunta era falar do Alckmin, da privatização e da estratégia do PT. Quanto a isso, eu sou absolutamente a favor de parceria. Nós fizemos em São Paulo mais do que em qualquer outro lugar. E deu certo. São Paulo tem as 10 melhores estradas do Brasil (…). Você pode estar certa de que, no caso dessa ponte, eu vou olhar todos os projetos. (…) Mais ainda, anote, você que é uma jornalista influente: eu vou fazer isso.
Rosane – Vai fazer a ponte? É um compromisso seu?
Serra – Não é um compromisso, é um anúncio!
Como notaram, a questão que não sei se já é ontológica ou ideológica, do “sim” ou “não” a um programa inexististe de privatização, acabou com o anúncio de uma segunda ponte sobre o Guaíba. E, no andamento do diálogo, parece que Rosane demonstrou até certa afeição pela privatização, né? A tese petista foi se perdendo na inconsistência e virou uma ponte. Tanto melhor!

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