ARTIGO
Difícil, não impossível
Viradas são raras e sempre surpreendentes. Dificílimas? Sim. Impossíveis? Não. Prova disso é que se repetem a cada eleição nas disputas estaduais.
Em 1994, ninguém imaginava a possibilidade de Eduardo Azeredo tornar-se governador de Minas depois de amargar uma derrota fragorosa no primeiro turno. Hélio Costa fechou a etapa inicial com 48,3% contra 27,2% do tucano, que, menos de 30 dias mais tarde, se elegeu para o Palácio da Liberdade com 17 pontos de frente. Essa é, possivelmente, a origem da comparação que fazem do ex-ministro peemedebista com um cavalo paraguaio, “bom de largada e ruim de chegada”. Dito que Costa voltou a comprovar agora. Largou disparado e terminou sem qualquer chance de alcançar o tucano Antônio Anastasia.
No mesmo ano, Cristovam Buarque também virou para cima de Antônio Bezerra no Distrito Federal. Perdeu no primeiro e levou no segundo turno.
Mas foi em 1998 que o país viu uma das mais vigorosas viradas. O governador Mario Covas, com 22,9%, quase foi derrotado no primeiro turno pela petista Marta Suplicy – ela com 22,5%. Passou raspando para disputar com Paulo Maluf, que vencera a primeira etapa com 32,2%. No final de outubro, Covas foi reeleito com 55,8% dos votos válidos. A façanha deveu-se a uma guinada total na campanha que induziu o eleitor a confrontar valores como seriedade, ética, honestidade, já identificados com o tucano, e a ausência deles em seu opositor, Paulo Maluf, uma reedição menos charmosa do “rouba mas faz” de Adhemar de Barros.
No mesmo ano, o petista Olívio Dutra, que ficara cabeça a cabeça na primeira etapa, ultrapassou Antônio Britto na segunda, elegendo-se governador do Rio Grande do Sul.
Em 2002, a virada espetacular coube ao peemebista Luiz Henrique, que avançou 11 pontos entre os turnos e se impôs sobre Esperidião Amin, até então tido como imbatível.
Quatro anos mais tarde, Roseana Sarney, que obtivera 47,2% na primeira rodada contra 34,3% de Jackson Lago, amargou a dor da virada. Com a posterior cassação de Lago, regressou ao governo do Maranhão e ficou perto de ver a história se repetir neste ano. Com uma das campanhas mais caras do país e apoio integral do presidente Lula, Roseana foi reeleita por um triz, com 50,08%.
Mas quem roubou a cena em 2006 foi Eduardo Campos (PSB). Nem deu bola para os reveses do primeiro turno quando foi derrotado por Bezerra Filho por mais de 6 pontos de diferença. Deu a volta por cima e venceu com 30 pontos de frente, algo inédito no país. Reeleito governador de Pernambuco no primeiro turno com mais de 80%, Campos realizou outra façanha: é o campeão absoluto de 2010.
Ainda baqueada e envolta pela areia dos castelos construídos por seu padrinho e por seu partido, que lhe garantiam vitória certa no último domingo, Dilma largou para o segundo turno com uma vantagem imensa. Com mais de 14 pontos percentuais de vantagem sobre o adversário, ela só não pode errar feio. Já José Serra, mesmo que consiga acertar tudo o tempo todo, depende não só de si, mas de eventuais tropeços da oponente.
Dilma e Serra ainda tateiam nas estratégias, não tiram os olhos das pesquisas diárias que recebem, assopram e mordem.
Mas, a medir pela primeira semana de campanha e pela estréia do programa eleitoral gratuito na última sexta-feira, tudo pode acontecer. Avessamente do que era de se esperar, o lado Dilma, vitorioso e favorito, se mostrou mais tenso, meio burocrático, um tanto parecido com o que os tucanos fizeram no primeiro turno. No campo oposto, Serra esbanjou entusiasmo, algo que não costuma ter com freqüência. Estava mais disposto, mais leve, como se o a faca e o queijo pudessem mudar de mãos.
Difícil? Sim. Impossível? Não.
Mary Zaidan é jornalista, trabalhou nos jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, em Brasília. Foi assessora de imprensa do governador Mario Covas em duas campanhas e ao longo de todo o seu período no Palácio dos Bandeirantes. Há cinco anos coordena o atendimento da área pública da agência 'Lu Fernandes Comunicação e Imprensa
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